Afinal, por que gostamos de histórias de ficção?

Afinal, por que gostamos de histórias de ficção?

A função óbvia de todo material relacionado ao entretenimento é entreter. Deste modo, talvez fique relativamente claro que as histórias de ficção visam, grosso modo falando, entreter os leitores que a consomem.

O autor Augusto Cury afirma que “estamos mórbidos e cronicamente insatisfeitos. A indústria do entretenimento explode desenvolvimento e a indústria dos tranquilizantes explode em crescimento.” É uma evidência do quanto o entretenimento é usado como fuga da realidade e como um modo de relaxarmos da rotina.

 

 

Mas afinal, fugir da rotina para consumir histórias inventadas? Bem, se é isso o que a ficção se propõe a fazer, por que afinal, as pessoas consomem este tipo de história? Vejamos.

Michael Focault, filósofo, certa vez disse que “a ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” Grave este frase.

Parece complexo, a princípio. Eu sei. Mas calma, vamos destrinchar tudo isso pra que faça sentido pra você. Pra que entendamos melhor o que quero dizer usando esta frase como referência, vou te levar comigo até o momento em que eu comecei a escrever os primeiros rascunhos de meu primeiro livro.

Quando comecei a escrever a saga Shákila, por exemplo, era bem novo. Não tinha nenhuma experiência com a escrita e o protótipo de ideia do enredo do livro surgiu depois de uma pequena decepção no esporte. Confira mais sobre essa história de infância clicando aqui.

Depois daquilo, comecei a rascunhar sobre um lugar. Uma dimensão paralela. Anos mais tarde, a dimensão paralela ganhou contornos geográficos. Personagens. Enredo. Contexto histórico e em alguns anos, eu tinha um livro em mãos.

Se olharmos para trás e voltarmos ao dia em que a história foi plantada dentro de minha cabeça, vamos entender que partiu de uma vivência real, que refletiu em uma história de ficção. Eu representei, quase inconscientemente, uma versão ficcional ideal de uma experiência vivida no campo real.

Eis aqui o ponto: acredito que as pessoas consumam ficção exatamente por este mesmo motivo. Não é só para fugir da realidade, mas para se ver representado nela de outra maneira. As pessoas querem se identificar com o que veem, leem, assistem e talvez este seja um dos principais gatilhos para reter alguém consumindo uma determinada história até o fim.

 

 

Estou usando o Google Forms para uma breve pesquisa aberta, sobre os motivos que levam alguém a consumir uma história de ficção (seja em qual formato for, série, cinema, TV, livro, etc). Dentre os principais pontos citados pela maioria esmagadora dos mais de 100 participantes até então,estão:

  • Identificação com personagens específicos
  • Enredos bem construídos
  • Ver sua realidade e/ou personalidade refletida na leitura
  • Como meio de entretenimento

[Farei um post específico sobre a pesquisa, em breve. Participe da pesquisa, preenchendo o pequeno formulário dela clicando aqui]

Seja uma versão idealizada ou simplesmente uma reconstrução literal das características de determinadas pessoas ou grupos específicos, é este o objetivo. Queremos nos ver, em algum grau, no que consumimos, ainda que inconscientemente.

Kotler diz, em seu livro Marketing 4.0 que as pessoas tendem a se identificar, atualmente, com as marcas que humanizam suas campanhas. Ele diz que “Com a humanização das marcas, o engajamento do cliente está ganhando importância. Ele rompe as barreiras entre as empresas e os consumidores e permite que interajam como amigos”, só confirmando que essa identificação com o que nos representa, de alguma forma, não é restrita à literatura, mas a praticamente tudo o que consumimos.

Esta é uma grande dica para quem deseja construir personagens, por exemplo.

 

E aqui voltamos à frase de Focault. As histórias de ficção não querem fazer com que nós vejamos o que não existe, o que é invisível (ficção). Na verdade, trata-se de enxergar até que ponto está invisível aquilo que é visível, mas não vemos. De forma simples, acredito que trata-se de vermos a nós mesmos, que somos visíveis e reais, refletindo naquilo que é construído de forma ficcional (o que é “invisível”).

É por isso que nós gostamos tanto de consumir histórias do que não é real. É que na verdade, trata-se de nossa realidade refletida em algum nível. É possível fugir da realidade de fato e se identificar, ao mesmo tempo. Quase um paradoxo. O visível no invisível. O real no ficcional.

Uma das minhas maiores satisfações enquanto autor foi quando li o prefácio do segundo livro Shákila, escrito pelo jornalista e professor universitário Franco Dani, especificamente no trecho em que ele diz “Pedro Werneck [o protagonista] é cada um de nós, com seus medos, inseguranças e desafios, mas também generosidade e coragem. Não é diferente da saga da vida real.”

Foi o trecho que conseguiu me arrancar lágrimas dos olhos. Senti que cumpri o objetivo. Fazer com que as pessoas se vissem em Pedro. Falar do real, dentro da ficção. Do visível, dentro do invisível. 

Como escritor (a) ou aspirante a ser um (a), é preciso ter consciência de que nosso objetivo é romper a cortina existente entre a ficção e a realidade e mesclar os dois, afinal, é isso o que faz com que gostamos tanto de ficção. É quase como se fabricássemos espelhos pra que os leitores se veem refletidos de alguma forma.

E você, tem fabricado espelhos dentro de suas histórias? Se não, é hora de começar a pensar a respeito.

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