Escrever: a arte de fazer da dor, motivo de prazer

O post de hoje é um pouco diferente.

No último fim de semana, participei de um evento chamado Brotas, em Governador Valadares, minha cidade. O Brotas basicamente é um evento que reúne artistas autorais a fim de apresentarem seu trabalho ao público – músicos, artesãos, teatro, e escritores. Uma mesa redonda com autores fez parte do evento e pudemos compartilhar nossas histórias, vivências e motivações no mercado editorial.

O curioso foi notar que, de todos os autores ali presentes, muitos de nós levávamos marcas de infância – boas ou ruins – em suas histórias. Alguns, mesclavam com fantasia. Outros, simplesmente se entregaram à autobiografia. Mas tinham partes de nós em cada um dos livros.

Como surgiu, por exemplo, a história de Shákila? Vamos lá.

Meu pai é fã de futebol. Fã daqueles que chamam a galera para fazer churrasco no fim de semana. É fã mesmo. Eu, porém, não tenho muito aptidão para esportes – nenhum. Mas tentei. E é exatamente aqui que nasce a história de meu livro. Resolvi treinar futsal, aos dez anos de idade, para agradar ao meu pai. No entanto, por não ter habilidade esportiva, meu time frequentemente caçoava (alguém ainda usa essa palavra?) de mim. Riam, debochavam e evidenciavam o quanto eu visivelmente era ruim naquilo. E então, num dos campeonatos que jogávamos e eu ocupava a posição de goleiro (porque corria menos, claro), o time adversário fez um, dois, três gols. E meu time veio pra cima, cobrando que eu reagisse.

Como uma boa criança madura, me sentei no gol e resmunguei: “não vou mais agarrar nada!”. O treinador invadiu o campo, desesperado.

— O que você está fazendo? — ele gesticulava, enquanto falava. — Você precisa agarrar!

— Eu sei — eu murmurava — Mas não vou.

E foi assim, que deixei a quadra, encerrando ali minha pequena e mal sucedida carreira futebolística.

Depois dali, conversei com meu pai e fui sincero. Eu disse que o futebol não era pra mim. Ele assentia, decepcionado e demonstrando compreensão – por mais que até hoje ele ainda chame pra bater uma bola.

E então, dias depois daquilo, eu comecei a rascunhar sobre um lugar onde as pessoas seriam aceitas independente de se encaixarem ou não num padrão que outras pessoas impunham ou esperavam que elas se encaixassem. Com palavras infantis de uma criança de dez, onze anos, produzi boas folhas manuscritas sobre este tal lugar utópico. Mas ele precisava de um nome. E um nome marcante. Então, pesquisando, descobri uma expressão árabe que traduzia “um lugar bom, belo, agradável de se viver”. O termo era Shákila.

Alguns anos se passaram. O lugar que eu havia criado era somente um lugar. Literalmente. Não existia nada, nem ninguém. Bem, isto até os quinze anos. Com a idade, eu finalmente criei personagens, histórico geográfico, um contexto de paz e guerra e um personagem que, apesar de nascer em uma dimensão paralela, desconhecia sua origem e tinha de trilhar um longo caminho até encontrá-la. Pedro Werneck, o jovem protagonista de Shákila que reflete minhas experiências bobas de infância, hoje é lido por outras centenas de leitores que se identificam – ou não – com suas características.

Voltando ao presente e ao evento do qual fiz parte, notei que são exatamente estas vivências de infância ou adolescência que se tornaram relatos e inspiraram não só a mim como a vários outros autores que estavam presentes na mesa redonda. Uma das autoras, por exemplo, escreveu um livro sobre as dificuldades de ser mulher e calçar numeração 42 – o termo “correto” é ser uma numeração especial, o que por si só, em meu ver, já é um termo pesado. Outra garota, por exemplo, passou a escrever sobre racismo e outras questões relacionadas ao tema ao perceber o quanto aquilo era presente no mundo que a cercava. Ainda tiveram histórias de autores que se puseram a escrever baseados em sua infância na fazenda.

Em suma, nossos relatos, no fim, se transformam todos em histórias que, futuramente, nos encherão de prazer. Seja transformando a dor em alegria, ou relatos de infância em grandes histórias.

Essa é a minha história e a de outros autores que pude conhecer. Qual é a sua?

Escrever, no fim, é libertador. 

2 ideias sobre “Escrever: a arte de fazer da dor, motivo de prazer

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